Carta de agradecimento Pedro Augusto

Carta de agradecimento Pedro Augusto

Terapikuba,

é sempre bom termos uma estrelinha da sorte a acompanhar-nos no nosso caminho…

O percurso do Pedro traduz isso mesmo… nasceu com 35 semanas, mãe com pré-eclampsia, como tinha baixo peso, teve que ficar na neonatologia. Por algum motivo que desconhecemos, apanhou uma bactéria e consequentemente uma sepsis, ou seja uma infeção generalizada no organismo. Como era muito pequenino e indefeso acabou por ficar com sequelas cerebrais. Traduzindo para uma linguagem que todos entendem, tem uma paralisia cerebral que comprometeu o seu desenvolvimento motor, além de que é surdo profundo bilateralmente. O aconselhamento médico foi sempre a reabilitação através de fisioterapias e todas as terapias (fala e ocupacionais) capazes de estimular a evolução desta situação tão comum para muitas crianças, mas tão longe da nossa realidade. Foram dias muito difíceis, sem grande orientação por parte da equipa médica, com um grande número de entidades públicas que fazem diagnósticos mas que na prática não resultavam em grandes progressos.

Nos primeiros três anos de vida do Pedro, deparamo-nos com inúmeras dificuldades que fomos tentando ultrapassar, contamos com a ajuda de alguns profissionais da APCV de Viseu para que os problemas que o Pedro apresentava fossem de alguma forma controlados, embora os resultados que tanto ansiámos não aparecessem. Foi neste contexto que frequentamos uma formação na Associação de paralisia cerebral de Viseu, aí a “estrelinha” brilhou… nessa formação estavam alguns fisioterapeutas de todo o país, inclusive o Mário Sichel (especialista em reabilitação infantil) Ricardo Oliveira e Filipe Barros. No final da sessão de formação o Mário quis conhecer os pais do menino que na altura com três anos tentava ultrapassar as suas dificuldades de locomoção com uma espécie de “gatinhar” ou melhor saltitar… O Pedro ainda não se sentava, não punha os pés no chão, estava sempre em movimento, descoordenação motora muito acentuada, mas com uma enorme vontade de ultrapassar as dificuldades à sua maneira. Aliás ainda hoje é a sua principal característica, a persistência, uma vontade enorme de ver, agir, fazer como os outros, uma perceção total do mundo que o rodeia. Ao conversarmos com o Mário, ficamos a conhecer um caminho diferente que existia que permitiria ao Pedro ultrapassar as enormes barreiras com que nos deparávamos. Marcamos uma consulta e logo nessa semana o Pedro começou a fazer fisioterapia na TERAPIKUBA.

Bem, aqui sim, começamos a perceber o quanto havia a trabalhar, e quanto tempo o Pedro tinha perdido, a verdadeira intervenção precoce em Portugal não existe, esta foi a primeira conclusão a que chegamos. Não, que não existam meios técnicos, financeiros e humanos, mas principalmente porque não são aplicados métodos de verdadeiro trabalho em equipa, concertados, em sintonia, que permitam às crianças (ainda bebés, no caso do Pedro) fazer com regularidade e de forma séria sessões de fisioterapia tão importante, para que mais tarde tenham resultados mais evidentes no seu desenvolvimento. Os meios estão dispersos, a informação e o acompanhamento é insuficiente para que os resultados apareçam. A assiduidade, regularidade e a técnica utilizada aplicada a cada menino ou menina é o principal “segredo” do sucesso de qualquer aprendizagem. Os primeiros meses foram muito complicados, o esforço a que estão sujeitas estas crianças é enorme, e como o seu corpo não está preparado nem habituado é normal que passemos sessões a ouvir crianças a chorar, pais ou familiares a desesperar…tudo faz parte do processo de reabilitação/aprendizagem dos nossos filhos, e ao fim de algum tempo encaramos todo este esforço e sacrifício (sim, sacrifícios… ás vezes é mesmo disto que se trata) com alguma naturalidade. Atrevo-me a dizer que as crianças que frequentam a TERAPIKUBA são verdadeiros atletas de alta competição, todos os dias trabalham para ultrapassar os seus limites. Enquanto mãe, não vos consigo deixar em palavras todas as emoções que vivi e que continuo a vivenciar nesta Clínica. Conheci casos que me sensibilizaram todos os dias e com os quais me identifico, a forma como os pais/família encaram este processo é muito importante para que o objetivo principal seja atingido. O diálogo, a interação e ajuda entre as pessoas que acompanham as crianças diariamente torna-se realmente importante. Depressa nos apercebemos que não vamos estar nesta Clinica por pouco tempo, a reabilitação/aprendizagem é um processo muito longo e temos que nos preparar para dias bons e menos bons, de avanços muito lentos, às vezes só percetíveis para quem está mais próximo, é portanto também um exercício de paciência, uma capacidade incrível que descobrimos que conseguimos ultrapassar quando vemos os nossos filhos a atingir pequeninos passos… agora já segura melhor a cabeça, a mão já consegue agarrar os objetos, já se vira…, o sorriso brilha nos olhos de cada pai ou mãe quando vê acontecer estas conquistas e ficamos felizes, por partilhar uns com os outros as vitórias de cada um.

“É um mundo há parte”, “só quem passa por aqui consegue entender o sentimento destes pais/família”, “estas crianças são felizes à sua maneira”, “aqui sinto-me bem porque encontrei muitas pessoas que passam pelo mesmo que eu estou a passar”…. Estas são frases que ouvimos diariamente e fomos retendo o essencial, é mesmo verdade que na TERAPIKUBA, nós pais e os nossos filhos se sentem bem. É verdade que as condições físicas das instalações podiam ser mais acolhedoras, mas também sabemos que o aspeto exterior às vezes não conta para nada… o importante é mesmo o seu interior a sua essência (pelo menos é assim que nos referimos às pessoas) portanto vou admitir que para além dos condicionalismos que este espaço tem, mas que está em vias de ser melhorado em varias vertentes, para nós enquanto utilizadores não impossibilitou ou interferiu em nada, para que o Pedro conseguisse chegar ao estado em que se encontra hoje, passados quase 3 anos de frequência ininterrupta deste espaço. Leva-me a concluir, que existe então mais um segredo bem guardado para este caso de sucesso. Tenho hoje a certeza que, aqui sim, as estrelas brilham a qualquer hora, desde o raiar do dia até ao anoitecer, são as tais estrelas da sorte que brilharam no caminho do Pedro. São a nossa família, não de sangue, mas que nós escolhemos para nos acompanhar e partilhar os dias bons, menos bons e mesmo alguns maus. São aqueles que nos aconselham, que nos ouvem, que nos incentivam a não desistir, e acima de tudo acreditam que é possível tornar o nosso filho mais autónomo, viver e ser útil nesta sociedade. Enquanto mãe sinto que o meu filho está em ótimas mãos (como costumamos ouvir). O método utilizado e partilhado pelo Mário Sichel através da experiencia trazida de outro País, aliado ao desempenho exemplar, dedicação extrema e a dose certa de profissionalismo diário dos fisioterapeutas Ricardo Oliveira, Filipe Barros, Miguel Faísca, Tiago Morais e Sérgio Rente (hoje já ausente da equipa) faz desta Clinica um caso de sucesso em Portugal.

O meu filho Pedro, hoje com seis anos já caminha sozinho, contorna obstáculos, sobe e desce escadas, levanta-se sozinho sem apoio e continua a fazer fisioterapia na Terapikuba de forma regular, para que possa melhorar a sua marcha e ser capaz de realizar outras tarefas em segurança sem qualquer apoio que lhe permitam ter uma vida autónoma. Fez uma intervenção cirúrgica que lhe permite ouvir, utiliza implantes cocleares, ainda não verbaliza mas comunica com muita facilidade à sua maneira. Frequenta o último ano do Infantário no Agrupamento de Escolas de Lamego e no próximo ano entrará para o 19, ciclo, pelo seu próprio pé. Como mãe, sinto um orgulho imenso nos meus filhos, o que tento deixar de testemunho, é que só com muito trabalho e esforço se conseguem alcançar grandes feitos, ultrapassar obstáculos e desistir não é palavra que conste no nosso dicionário.

Por fim, resta-me desejar a todos as crianças que frequentem a TERAPIKUBA os maiores sucessos, aos pais e familiares, muita força e coragem porque os resultados vão chegar. Aos pais/familiares de crianças que ainda não conhecem a TERAPIKUBA, dizer que vale a pena tentar, conhecer de perto o trabalho e a equipa é fundamental, manter a confiança e questionar sempre que for necessário.

Para toda a equipa da TERAPIKUBA desejo em meu nome, de toda a família, amigos e especialmente em nome do Pedro Augusto, que o brilho de cada um de vós se espalhe pela casa de muitos meninos e meninas, sejam para eles também a estrelinha da sorte que tanto precisamos!

Mãe do Pedro Sílvia Bernardo Lamego, 27 de Outubro de 2015

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